O dia que encontrei com o Caetano Veloso no Leblon, minha mãe estava perdida em Madureira, a Annanda se apaixonou pela piscada de um cara em Botafogo, a Juliana teorizava por email lá da Lapa sobre o sexo casual e o feminismo. E de algum canto calorento da cidade ele não ligou e o toque das mensagens do celular está me causando mini infartos.Claro que a roupa não era adequada para encontrar Caetano. Estava com meu batido blazer cinza, uma camiseta do Super-Homem, saia preta e a sapatilha mais companheira do mundo. Mas acredito que não exista look perfeito para aparecer diante do cara que descreveu meu coração e sabe que ele não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer. Pelo menos o cabelo estava em um excelente dia.
Tudo bem. A verdade é que eu não encontrei com Caetano Veloso. Não marcamos na livraria mais charmosa da cidade. Não foi isso. Meus ombros encontraram sem querer os braços de um senhor grisalho que só virou O cara da Tropicália quando levantei o olhar. Mas na livraria estávamos, eu com a Rolling Stone do Chico Buarque indo em direção a seção de DVD e Caê vinha distraído do corredor de filosofia, descabelado, óculos de grau, uma jaqueta jeans surrada, magro com uma pancinha simpática de um senhor de 70 anos. Um olhar sério, mas um passo leve tipo canto e danço que dará.
O dia que encontrei com o Caetano, escutei Caetano o dia todo, cruzei a Voluntários da Pátria feliz cantarolando 'Eclipse Oculto' como se fosse uma música feliz, levada pela batida esqueci que são os versos perfeitos para se chorar pelo quase amor no chão do banheiro. E o corpo não agia como se o coração tivesse antes que optar entre o inseto e o inseticida...
O irmão da Bethânia me pediu desculpa pelo esbarrão e eu só queria agradecer pelo Transa, o disco inteiro! E contar que ‘You Don't Know Me’ está na minha lista de coisas que valem a pena viver, eu também feel so lonely, the world is spinning round slowly, falar que ‘London, London’ é melhor que a cidade de Londres e sempre desperta uma esperança no peito quando toca . E por causa de ‘Saudosismo’ eu só consigo amar gente que entende João Gilberto. Afinal, eu, você, nós dois já temos um passado, meu amor. Um violão guardado e um mundo dissonante que nós tentamos inventar. Deveria ter contado para o pai do Moreno que, secretamente, eu cantarolo ‘Baby’ antes de deixar algum rapaz entrar, de tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto...
Quando Caetano foi embora alguém sussurrou sobre os cabelos brancos. Eu só queria ligar pra você e dizer que nós só nos entenderíamos de novo na presença de uma vitrola e todos os discos do Caetano Veloso. Não liguei, algo relacionado com meu coração galinha de leão que não quer mais amarrar frustração, canalhice e outras mumunhas mais. Mas esse papo já tá qualquer coisa. Acho que você já tá pra lá de Marrakesh. E eu quero seguir vivendo amor feito ‘Alegria, alegria’.
7 comentários:
Imagina se fosse o Chico Buarque!
Encontro com o mestre Caê merece textinho! Belo trabalho amiga <3
ócéus.
aparição dessas ganhava por uma vida inteira. e todas, praticamente, todas esses trechos que vc colocou ai no seu canto descreveram particularidades minhas. todas eu já dei um espaço pro coração falar..incrível, só caê nos entende.
Flores.
hahaha
todas, não, né: todos.
Acho que Caetano Veloso não estava bem vestido para te encontrar. Falei.
Amei e to no site do Caetano Veloso
mandando esse texto pra assessoria de imprensa dele...eu gostei mto
quero q ele leia.
Vou fzr Caetano te ligar e pontno final!
haahahahah
Se fosse o Chico ela morreria.Lindo texto.
Postar um comentário